Cuidar de quem não tem voz é um ato de profundo amor, mas também pode levar ao limite emocional. Um estudo inédito em Portugal, desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), revela que metade dos cuidadores informais de gatos de rua apresenta níveis moderados de fadiga por compaixão, sendo que 10% enfrentam quadros graves deste tipo de esgotamento mental e emocional.
O estudo — que contou com a participação de 172 cuidadores e reuniu especialistas das áreas de Psicologia, Veterinária e Bioestatística — traçou pela primeira vez o perfil de quem dedica a vida a proteger as colónias ferais e avaliou o impacto psicológico dessa dedicação.
Desmistificando Estereótipos
A imagem popular de que os cuidadores de colónias são pessoas idosas e isoladas socialmente não corresponde à realidade. De acordo com os dados apresentados pela equipa de investigação:
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Perfil predominante: Mulheres com uma idade média de 53 anos, ativas no mercado de trabalho e com ensino superior.
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Impacto emocional: A satisfação de ajudar os animais é elevada, mas a exposição diária ao sofrimento e ao abandono acaba por ter um peso emocional inevitável.
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Rede de apoio: Os cuidadores que contam com o apoio e a compreensão das suas famílias apresentam menor risco de desenvolver exaustão emocional.
Os Principais Desafios do Dia a Dia
Para além do desgaste psicológico, a investigação destacou os grandes obstáculos enfrentados por estes protetores no seu quotidiano:
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Sobrecarga Financeira: Os custos elevados com alimentação e despesas médicas/veterinárias são maioritariamente suportados do próprio bolso.
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Hostilidade Social: É frequente enfrentarem incompreensão, atritos e até ameaças por parte de vizinhos.
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Falta de Acompanhamento Continuado: Embora existam programas de Captura-Esterilização-Devolução (CED) e apoio municipal, estes centram-se sobretudo no controlo populacional, deixando os cuidados diários de saúde e alimentação inteiramente a cargo do cuidador.
O Apoio à Causa Animal É Também Uma Questão de Saúde Pública
Como salienta a professora Cristina Costa Santos, coordenadora da investigação, apoiar os cuidadores de rua é fundamental não só pelo bem-estar animal, mas também pela saúde pública e pela qualidade ambiental das cidades.
A equipa defende a necessidade urgente de:
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Políticas públicas de gestão partilhada de colónias, evitando que a responsabilidade recaia sobre uma única pessoa;
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Maior apoio prático e financeiro por parte dos municípios;
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Campanhas de sensibilização para desmistificar e valorizar o papel destes voluntários perante a sociedade.
O trabalho de proteção animal transforma vidas, mas quem cuida também precisa de ser cuidado.
Com agência Lusa